Kanye West no Tim Festival 2008 | Fúria Hip Hop
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    Kanye West no Tim Festival 2008

    As 3 palavras que me ajudam a resumir o show de Kanye West no Rio de Janeiro são conceitual, performático e técnico.

    Conceitual por ser diferente de tudo o que tem sido ensinado pela indústria fonográfica nos últimos 15 anos como Hip-Hop através dos clips, capas de revistas, CDs ou publicidade. Nada de banda ou DJ no palco. Nada dos habituais figurinos com camisas de tamanho xxl, calças largas e tênis caros ou então ternos caríssimos, sapatos e acessórios de grandes grifes. Nada de jóias, cordões e anéis pesados ou enormes brincos de brilhantes. Nada de carrões, maços de dinheiro, mulheres bonitas, orgulho por uma extensa ficha criminal ou incentivo ao uso de drogas. Nada com cara de asfalto, morro, gueto, camuflagem, stencil, pixação ou grafite. Kanye trouxe algo que foge a tudo o que foi citado. Não é inovador por inventar algo, mas por utilizar elementos ou coisas que sempre existiram mas nunca foram trazidas, ou tiradas, do já formatado “Mundo do Hip-Hop”. Trouxe o conceito visual e narrativo dos quadrinhos, publicidade, filmes e seriados de super-heróis japoneses. Sem perder o respeito do seus colegas construtores do atual Hip-Hop, trouxe o diálogo escancarado com outros segmentos musicais como fez em “Stronger”, na qual usa e abusa de samples da música “Harder, Better, Faster, Stronger” do Daft Punk (consagrada banda de música eletrônica a mais de 10 anos), de participar com seu rap em “American Boy” da Estelle introduzindo o Hip-Hop ao House mais comercial possível fazendo do Hip-Hop um sucesso cada vez maior.

    Kanye demonstra que tem raízes mais profundas do que se pode ver a olho nú. Vejo nele muitos dos conceitos do “pai do Hip-Hop” o Sr. Afrika Bambaataa. Durante as décadas de 70 e 80 Bambaataa foi DJ de festas consideradas clássicas no Bronx, época em que o movimento Hip-Hop ainda não possuia nome, visual ou mesmo seu “próprio som” e por isso tocava de tudo que se possa imaginar “junto e misturado”. Até hoje Bambataa toca assim, por acreditar que o formato do verdadeiro Hip-Hop é na verdade desformatado. Em 1981 quando lançou o LP Looking For The Perfect Beat já como artista Afrika Bambaataa e sua banda The Soul Sonic Force fizeram valer a forma como até então era escrita a história do movimento Hip-Hop ao convidarem um DJ branco que tocava nas boates mais alternativas de New York e tinha um repertório considerado bem experimental para produzir os beats de seu disco. Simplesmente era Arthur Baker um dos pioneiros da música eletrônica, o qual produziu alguns dos maiores nomes da década de 80 e 90 e construiu uma considerável lista de sucessos com seu talento e técnica. Para montar os beats do carro chefe do disco Baker pegou samples da música “Trans Europe Express” do grupo Kraftwerk e construiu para Afrika Bambaataa “Planet Rock” um dos maiores clássicos do Hip-Hop / Rap / Miami Bass / Dance Music / Música Eletrônica de todos os tempos. Na época de ouro das equipes de som aqui do Rio de Janeiro foi apelidada pelo público como Mêlo da Explosão, já que era muito difícil falar o nome da música por parte da grande massa. Muitos consideram essa música, fruto da fusão do Rap oriundo do Bronx com a Música Eletrônica da Europa, como um dos hinos dos primórdios do movimento Hip-Hop. Bambaataa também fugia do habitual com o figurino. No primeiro momento se inspirava nas esfinges e faraós do Antigo Egito em total contraste ao que se via nas ruas, onde imperavam as gangs de jovens que usavam tênis adidas cabeção, quepes, bonés, jaquetas pretas de couro bem justas, calças jeans centro-peito e apertadas, conjuntos de moleton e grossas correntes douradas, andando ao estrondoso som de microsistems gigantes carregados sobre um dos ombros e colocados propositalmente ao pé do ouvido tocando disputadíssimas fitas cassetes mixadas das festas que rolavam em New York e com o tempo no resto dos EUA. Caso queira se situar melhor basta assistir a um episódio do seriado Todo Mundo Odeia O Cris / Everybody Hates Cris. Entende porque digo que Kanye não inova porque inventa, mas por saber direitinho o que incluir ou excluir para fazer Hip-Hop de verdade?!

    Performático Kanye cantou o show todo, algo bem incomum nos EUA. Lá é encarado com naturalidade até mesmo um show grande ser feito todo no play-back. Normalmente só cantam em gravações especiais de CDs e DVDs ou aparições na TV. Fora isso demonstrou bom preparo vocal e físico, pois mesmo em frases longas não perdeu o fôlego ou desafinou, além de correr o tempo todo pelo palco de uma ponta a outra. Kanye não poupou esforços de seu lado ator nas interpretações que fez durante a apresentação antes e durante cada música.

    Técnico por não ter festa antes ou depois do show, tentar do show uma peça teatral com início, meio e fim, cantar todos os sucessos antigos e atuais, escolher muito bem o repertório, fazer um show na ascendente, mas sem explodir e sem direito a bis. Kanye se garante a fazer de seu show maior até do que ele mesmo, tanto que nem troca muito calor com o público, mas com certeza fica guardado na cabeça de muita gente. Como disse anteriormente, ele faz as coisas de forma diferente ao habitual, basta comparar com as últimas atrações que estiveram no Brasil. Quase sempre botam um DJ para fazer festa antes de sua entrada, começam e terminam um show sem pé nem cabeça, escolhem mal o repertório do que vão cantar, tem cerca de 30 minutos só de hits levando o público ao delírio, mas o resto do show antes e depois são horríveis, dão cerca de 3 bis dos mesmos hits daqueles 30 minutos e dublam cansados todo o “show” apesar do DJ e banda estarem no palco. Por não se garantirem fazem 500 programas de TV, chamam pessoas para subirem no palco e fazem inúmeras macaquices para o público, mas logo no dia seguinte somem diante dos péssimos comentários feitos tanto pela imprensa quanto pelo público, caindo rapidamente no esquecimento.

    O único ponto fraco do show foi a equalização do som, que estava muito grave, quase sem médio e bastante agudo. Se o som estivesse bem trabalhado com certeza faria do show muito mais marcante do que já foi, mas como no todo foi uma experiência ímpar muitos nem se deram conta do quanto estava ruim.

    Mais uma vez o público carioca está de parabéns pelo imbromation e participação em todo o show, mas em especial quando Kanye cantou American Boy, Gold Digger, Good Life, Flashing Lights e All Falls Down, manteve considerável participação em Through The Wire, Get Em High, My Way, Champion, Touch The Sky, Can’t Tell Me Nothing, Good Morning, Diamonds From Sierra Leone, Heard’Em Say, só esfriando com as músicas mais frias como Stronger e Homecoming, apesar de serem sucessos.

    Resumo, quem foi com certeza pode acrescentar mais algumas linhas positivas nesse texto.

    DJ D’Artagnan

    Fúria Hip-Hop

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